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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

DESORDEM DO DIA

 

Nova Ordem

 

Sobre o filme "Control", uma sóbria abordagem à vida do poeta suicida Ian Curtis, podia distender memórias e emoções. Prefiro fazer uma analogia arriscada com a desordem dos dias nacional: Sá Carneiro é o Ian Curtis do PSD. Não, não houve suicídio no caso de Sá Carneiro, mas houve igualmente morte e a sua sombra perdurou no partido, como referência e culto. Com a morte de Sá Carneiro, o PSD teve de se refundar. Tal como os Joy Division tiveram de se transformar em New Order com o desaparecimento do mentor. Era aqui que queria chegar: o PSD depois de Sá Carneiro é uma espécie de New Order da política portuguesa. Um partido de cores menos carregadas, que se foi definindo com o tempo. O  órfão que fez um esforço para, depois do luto, sair de casa com casacos coloridos e um sorriso na cara. Diz-se por aí que a banda social-democrata, após ter passado por várias formações e hoje liderada por Menezes, quer profissionalzar-se e transformar-se numa empresa.  Sim, é como se os New Order assumissem o cansaço da alma e a falta de criatividade. E se transfomassem, melancolicamente, numa multinacional de canções. 

 

 

Povo chato

O povo português é um povo muito chato. Muito chatinho. Muito embirrento. Muito "hanhanhan". Falo por mim. Eu também, no final do jogo com a Finlândia, fiz um ar enfadado e lancei a farpa quando vi a equipa e Scolari aos pulos: "Estão todos tão contentinhos por terem empatado com a Finlândia!". Hanhanhan. No fundo, isto não passa de um campeonato: "Quem é que é mais emocional, nós ou Scolari?". Só que, com Luiz Felipe, nós não queremos só o amor da relação. Queremos que o homem fique maldisposto. Que, quando regresse a casa no fim do dia, com o dinheiro necessário para o sustento familiar e a disponibilidade para os afectos, ainda ouça as nossas palavras de impaciência e exigência. Somos chatinhos, sim senhor. Todos os dias arriscamos novas bocas. O que só acontece porque sabemos que somos por ele amados. Porque sabemos que ele não nos vai deixar. Somos chatos. Chatinhos mesmo. Não é fácil estar casado connosco.

 

Da complexidade da vida

Apanhei por acaso um dos episódios do documentário de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial. Mais do que um encontro com a História, foi um encontro com a vida. Com a vida densa, cheia de contradições e correntes contrárias. Não a vida a preto e branco, com bons e maus, heróis e vilões, gente e monstros. O episódio cruzava depoimentos de guerrilheiros africanos e de ex-funcionários portugueses em África sobre as características essenciais da colonização portuguesa. Como éramos como colonizadores? Cruéis? Sanguinários? Humanos? Compreensivos? Implacáveis? Batíamos ou não batíamos nas pessoas por dá aquela palha? As respostas variam, variam muito. O que nos vem relembrar que a vida, mesmo aquela que existe numa situação estruturalmente injusta e cruel, tem muitas tonalidades. Muitas mais do que aquelas que, demasiadas vezes, nos querem vender.

Fanar livros

 

Eis uma das notícias mais invisíveis e interessantes da semana: um toxicodependente arranjou dinheiro para a droga vendendo livros antigos - obras que roubou, durante dois anos, nas bibliotecas que frequentava. Dois vícios juntam-se à esquina: o vício da droga e o vício dos livros. Parece que o cidadão em causa, apesar de usar critérios seguros para avaliar as obras a fanar no escurinho das estantes, apenas sofre da primeira adição. Mas podia acumular os dois vícios. Ou até, quem sabe, numa hipótese aparentemente delirante, só sofrer do segundo. Façamos o exercício de olhar a coisa do avesso, exercício estafado mas raramente ineficaz. E se a gente abrisse o jornal e lêsse o seguinte título: Bibliodependente arranjou dinheiro para os livros vendendo droga. Não é hipótese tão delirante assim, garanto-vos. E, nisto, tenho muito medo de mim e de outros insanos como eu. Tenho, tenho.

  

 

Fechar a loja

 

Elton John, provocador mesmo na sua versão recente e comercializável, propôs que se fechasse a internet durante 5 anos.  John acha que as pessoas deviam sair, comunicar e criar mais, em vez de estarem fechadas em casa a visitar e a alimentar blogues. Ok, é visão radical e carregada de polémica, capaz de irritar qualquer infomaníaco, categoria em que me incluo. Mas não me interessa discutir a opinião do senhor. Interessa-me apenas imaginar um mundo sob o jugo de uma lei seca, versão net. Esta semana soube-se pelas notícias que havia na rede um site a inspirar uma série de potenciais suicidas portugueses. Ora, se  fosse retirada, de um momento para o outro, aos cidadãos a possibilidade de visitar sites isso iria ter como consequência o suicídio de muito boa gente de todas as nacionalidades. É o estafado "preço por ter cão, preço por não ter". Fechar a internet é fechar não o mundo, mas fechar este mundo. E este mundo não iria suportar tamanha desfaçatez.

 

(crónicas para o Visita Guiada, do RCP)

 

publicado por Nuno Costa Santos às 13:04
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007

DESORDEM DO DIA

Entrada de carrinho

 

 

No debate parlamentar de terça, José Sócrates podia ter seguido uma de duas vias: ou tratar o cidadão Pedro Santana Lopes institucional e abstratamente, como o líder parlamentar do maior partido da oposição, ou então chamá-lo pelo nome. Optou pela segunda - e ganhou a aposta. Sim, foi opção arriscada. Sublinhar a vermelho os parágrafos da biografia política do adversário, mesmo os negativos, é dar-lhe importância. É reconhecer-lhe existência de peso. É atribuir-lhe um papel relevante. E o primeiro-ministro, pelo posição que ocupa, pode dar-se ao luxo de fingir ignorar a vidinha de quem tem à frente. Tal e qual um actor pode ser blasé ao ponto de não olhar de frente o jornalista que lhe coloca as perguntas na conferência de imprensa. José Sócrates partiu logo para a pancada. Digamos que deu forte e feito no lombo de Santana. Aliás, lembrando outra agressão da semana, ao pé da entrada de Sócrates sobre Santana a entrada de Binya sobre o escocês Scott Brown foi uma brincadeirola de recreio.

 

Defesa dos mirones

 

 

Esta semana fomos todos mirones. Mirones de um desastre de autocarro que abrandou a marcha do país. Nesse gesto de olhar o desastre alheio, pusemo-nos todos a jeito. Não há seres mais mal-amados do que os mirones. Toda a gente se queixa daqueles que abrandam a marcha só para ver os destroços espalhados no pavimento depois de um desastre, como se toda a gente fosse superior a isso. O problema é que, quando há um desastre, o trânsito abranda sempre. Ou seja: "toda a gente" é apenas uma forma de expressão. Venho aqui fazer a defesa do mirone. Calma. Não desliguem já. Simpatizo com o mirone porque simpatizo com o humano. Porque não há nada de mais humano do que espreitar as feridas dos outros. O mirone pode julgar-se um deus protegido nesse gesto de olhar, mas, na verdade, é mais uma das vítima do que está a ver. Isso: o mirone faz parte do acidente. É o destroço intacto do carro que se despenhou.

 

A greve da escrita

 

O audiovisual americano está em pânico. Porquê? Porque não há publicidade que chege? Não. Porque os guionistas estão em greve. Sempre achei - até por praticar o ofício - que os guionistas são uma espécie de dadores anónimos, com deveres vários e quase nenhum direito. Com os guionistas acontece isto: quando o programa de televisão corre bem, são esquecidos, como uns parentes afastados e que não convém nomear em público. Quando o programa é um desastre, são sempre os culpados." Isto não funciona porque o texto é mau". Agora, há um greve da classe. É como se a mal tratada mulher do senhor do Armindo resolvesse deixar de fazer o jantar. A ver o senhor Armindo começa finalmente a dar-lhe valor e a acarinhá-la . E a verdade, verdadinha é que, neste momento, a indústria do entrenimento está a passar fome.

 

Quarto das arrumações

 

 

A nós, não nos acontece nada. Melhor: a nós nunca vai acontecer nada. Estamos protegidos pela nossa pequenez e insignificância. Quem é que iria querer atacar um sítio tão frágil e sem dimensão internacional nenhuma? Pois, pois, pois, a conversa de sempre, no tom de sempre, com a displicência de sempre. Mas, espera aí, afinal já nos vai acontecendo alguma coisa. Esta semana foi detido no país um suspeito de terrorismo internacional. Espera aí: já há um tempo que se levanta a hipótese da passagem de terroristas por território luso. Espera aí: diz-se, em certos círculos, que a ETA tem cá bases logísticas. Ok. Ainda não fomos palco de explosões sem rosto. Mas daqui a nada Portugal ainda vai ser conhecido mundialmente como a despensa do terrorismo.

 

Os extremos de Nery

 

Na arte e na vida gosto de ver os extremos lado a lado. Agrada-me a fusão entre o sublime e o quotidiano. Entre o amor e a ida à farmácia. Entre o sexo e o parquímetro. Entre a morte e a conta da TV-Cabo. Acho que a vida se situa algures no meio dessas duas aparentes extremidades. E é bom que a arte não fuja muito à circunstância. Os deuses também espirram - e é preciso que se fale disso nos livros, nos filmes, nas exposições, nas performances. Na sua mais recente exposição, o artista maior Eduardo Nery, há muito habituado a este tipo de jogo de aproximações, resolveu encurtar a distância entre mundos. O delicioso resultado da subversão está exposto na Fundação Medeiros e Almeida. A morte de Adónis, quadro do século XVIII, visitado pelo rosto nada sublime de Frankenstein. Uma nobre sala de jantar visitada pela figura do Pateta - que serve, alegremente, canecas de cerveja. Um relógio antigo a servir de máscara a uma bela mulher. De tudo isto se faz o último fôlego criativo de Eduardo Nery. Para sentir, matutar, divertir e delirar.

 

(crónicas do "Janela Aberta", programa de Célia Bernardo, no Rádio Clube)

publicado por Nuno Costa Santos às 11:54
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Terça-feira, 6 de Novembro de 2007

Tudo é Ressentimento

 
publicado por Nuno Costa Santos às 10:53
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Sábado, 3 de Novembro de 2007

Notinhas


Sem ruído


O procurador-geral da República não usa palavras caras e elaborados termos técnicos quando se refere às escutas telefónicas. Usa antes uma linguagem simples, de corredor, de café, de centro comercial, de ginásio, de oficina. Fala em barulhos esquisitos no telemóvel e recorda aos mais distraídos que há lojecas na cidade onde é possível comprar aparelhos para escutar os outros, de forma ilegal e inadmissível. Fala do assunto como nós falamos, no nosso dia-a-dia de conversetas várias. Com a nossa preocupação, com as nossas bocas. Com o nosso medo. Sim, pode dizer-se que, pelo cargo que ocupa, o senhor devia ter outros cuidados na forma. Mas, ainda assim, neste caso é preferível um procurador que seja capaz de falar de forma corriqueira de um problema que parece  estar fora de controle do que um professor de Direito de Coimbra. Ou por outra: o homem não quer que ouçam as conversas que tem com quem bem lhe apetece. Nós também não. E - para utilizar as palavrinhas do momento - é mais útil tratar do assunto sem interferências. Sem ruído.


O Dailai Lama dos Freaks




Sim, houve o expectável fogo de artifício de "Because the Night", "Glória" e "Pissing in a River". Mas o momento mais forte do excelentíssimo concerto de Patty Smith foi quando a diva do Rock desceu ao público para cumprimentar, um a um, os cidadãos presentes. Foi aí que ficou claro que não estávamos num vulgar espectáculo, mas sim no encontro maior de uma geração de lusitanos rebeldes e nostágicos. Numa uma espécie de reunião de antigos alunos, formados, nos idos de 70, no desvario punk-rock de Patty and friends. Patty é o Dailai Lama dos freaks. Mesmo daqueles - e eram tantos - que traziam por cima dos ombros o pulôver beto e guardavam no bolso das calças Façonnable as chaves do apartamento em Telheiras.


publicado por Nuno Costa Santos às 23:49
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